sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Conversas com o Espelho (Bruna de Paula)

Belo texto de Bruna de Paula.




Tenho a estranha mania de pensar o mundo a partir do meu espelho, meu reflexo já foi uma soma do que disseram que eu era, do que queriam que eu fosse. Foi um processo dolorido encontrar o rosto atrás das máscaras que me eram colocadas. Mulheres da minha cor, mulheres negras desde meninas estão acostumadas a ter pessoas dizendo qual é o seu lugar. Ora falavam que meu pé tava na cozinha, ora que meu lugar era a frente de uma escola de samba, também escolhiam meu marido, diziam que deveria ser um gringo, um homem loiro, olhos claros, rico e que através disso eu iria mudar minha vida. Minha mãe sempre me incentivou a olhar além, disse que eu deveria estudar, trabalhar e batalhar pra ter minhas próprias coisas. 

Cresci num mundo onde eu não era vista, um mundo onde dizia que todo mundo era igual, mas eu não era tratada como igual. 

Na última semana, estive conversando com o espelho, onde hoje me vejo sem as máscaras, meu semblante insatisfeito tinha motivo. Miguel Fallabella, homem branco, quer levar ao ar a série “Sexo e as nega”, olhando o título, novamente senti como se quisessem colocar em mim as tais máscaras que me anulavam no passado. 4 amigas, moradoras de um bairro pobre, em subempregos e loucas por sexo. E muitos se perguntam, onde está o problema?

Para que melhor fique ilustrado, eu sempre retorno a minha infância, onde as mulheres da minha cor nunca estavam representadas nos cargos das empresas das novelas, nunca era a esposa do dono dos impérios retratados, nunca eram as donas dos impérios. Mulheres negras não estavam nos concursos de belezas, só nos que eram pra representar uma beleza carnavalesca. E nas aulas de história, eu só conseguia dar graças a Deus por não ter nascido uns 200 anos mais cedo. Quando comecei a viver minha vida amorosa/sexual os rapazes não flertavam comigo falando sobre minha beleza, o flerte era sempre sobre como mulheres negras eram quentes e fogosas.

Miguel Fallabella, dar protagonismo não é fazer isso que você está fazendo, reforçando estereótipos. Sim, gostamos de sexo, não há problema nenhum nisso, mas quando nossa imagem é somente remetida a mulheres de sexo fácil, quando nos objetificam e você contribui pra dar visibilidade a essa imagem, você não está nos tornando protagonistas. Quando você não ouve nossas vozes e nos chama de capitães do mato por estarmos reivindicando nossos direitos, você não nos dá o protagonismo. Sim, nós somos domésticas, mas também somos advogadas, professoras, pedagogas, psicólogas, nutricionistas, veterinárias, esteticistas, figurinistas... 

Quando acontece um caso de racismo que chega ao conhecimento de todos, como tem acontecido com o racismo no futebol, os artistas se mobilizam, fazem campanhas publicitárias contra o racismo, comem bananas. Mas no dia a dia, é na nossa cara que a banana é jogada, são os nossos corpos que são arrastados e jogados nos becos. A mídia que faz a campanha é a mesma que nos invisibiliza e silencia, não nos dá destaque e quando dá, temos que ficar satisfeitos com qualquer coisa “qual foi pretinha, to aqui pagando de princesa Isabel, te ajudando e você ainda quer reclamar?”, foi exatamente o que eu interpretei do pronunciamento do Miguel Fallabella.

A grande mídia contribui para que não sejamos reconhecidos como seres humanos em sua plenitude e aguarda a bomba estourar para dizer que está do nosso lado fazendo campanhas pouco eficientes, já que diariamente torturam e desgraçam a nossa imagem.

Meu espelho reflete a luta das minhas ancestrais, refletem o sorriso das minhas irmãs, suas histórias de vitória ou dor. Meu espelho não reflete nenhuma história que um branco equivocado resolva contar sobre mim.

E não precisa me dizer que a série ainda nem começou pra eu estar aqui falando, eu vivencio os julgamentos há 23 anos, já sei quando vão honrar ou não minha história só lendo a capa do livro. Quem quer reafirmar nossas lutas, ouve nossas demandas em vez de dar o que supõe que a gente precisa. 


E se tem uma coisa que a gente não precisa, é mais gente divulgando a nossa imagem como a carne mais barata do mercado.



Postado por Ana Virgínia

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